Somos da mesma matéria que os sonhos são feitos
- Sylvia A
- 23 de mai. de 2025
- 2 min de leitura

Quando William Shakespeare, na peça "A Tempestade" (Ato IV, Cena I), nos diz: "Somos da mesma matéria que os sonhos são feitos; e nossa pequena vida é cercada por um sono", ele está se referindo à efemeridade da nossa existência. Nossos sonhos, assim como nossa existência, são passageiros e insubstanciais. Como psicanalista, concordo com essa frase, mas não com seu sentido: nossos sonhos são feitos da mesma matéria que nós, porque os construímos com aquilo que somos e, muitas vezes, com o que não lembramos ser. Explico:
Psicanaliticamente, somos constituídos através do monismo (não existe separação entre corpo e mente); ou seja, construímos nosso conhecimento através das nossas experiências psíquicas e corporais. Essas vivências nos constituem e moldam a forma como estamos no mundo. Algumas, por serem insuportáveis ou inexplicáveis, são armazenadas e protegidas. Nosso corpo, como nosso maior protetor, retira do nosso acesso consciente o contato com esses acontecimentos e, assim, mantemos nossa homeostase (a habilidade de manter o meio interno em um equilíbrio quase constante).
Ainda assim, alguns acontecimentos acionam ou trazem essas memórias recalcadas. E, mais uma vez, nosso mecanismo de proteção entra em ação. Freud nos diz que os sonhos são a realização dos desejos, seja o simples ato de sonhar que se está bebendo um copo de água para aliviar a sede ou qualquer outro desejo mais obscuro: a realização ou a resolução das nossas memórias recalcadas. Apesar de seu significado não ser claro e objetivo, "O sonho é a via régia que conduz ao inconsciente.” (A Interpretação dos Sonhos).
Nosso inconsciente utiliza algumas ferramentas para transformar o conteúdo recalcado em conteúdo manifesto, sendo elas:
Condensação: vários elementos do conteúdo latente são combinados em um único elemento no conteúdo manifesto.
Deslocamento: a emoção ou importância associada a uma ideia é transferida para outra ideia menos ameaçadora.
Simbolização: ideias e desejos são representados por símbolos que podem não ser reconhecidos pelo consciente.
Por isso, quando falamos, em psicanálise, da interpretação dos sonhos, um mesmo significado não pode ser atribuído a uma mesma imagem onírica. Afinal, o seu sonho foi constituído pelo que você foi constituído, e, caso nele você esteja voando ou comendo um bolo, apenas você, através da análise de cada fragmento desse sonho, poderá dizer seu significado. Para tanto, utilizamos a livre associação, que permite que as conexões entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente do sonho sejam reveladas.
Ainda assim, nem todos os sonhos possuem um significado profundo. Alguns são causados apenas para que você continue a dormir, como o seu despertador que se torna uma música ou quando você sonha que está indo trabalhar e continua a dormir. Eles nos mostram que não há um limite claro entre a fantasia e a realidade psíquica.
Até o próximo texto.


Comentários