A Energia Psíquica e a Compulsão à Repetição: Um Caminho para a Liberdade
- 23 de mai. de 2025
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Neste site, utilizamos a definição spinoziana de liberdade. Segundo Spinoza, a liberdade está associada à compreensão da própria natureza e à capacidade de agir de acordo com essa compreensão. Ou seja, entendemos que tanto as nossas escolhas quanto a forma como nos apresentamos ao mundo são influenciadas pela nossa condição de existência e pelas nossas vivências. E, apesar de sabermos que não possuímos uma liberdade irrestrita, temos o livre-arbítrio, que é a nossa capacidade de escolher entre as opções que nos são apresentadas.
Explico: você nasceu em uma determinada família, em uma determinada cidade e foi inserido em uma determinada cultura. Claramente, essa condição influenciou a forma como você é ou se vê atualmente. Este é o seu ponto de partida. Você não escolheu a sua educação, como seria criado, as situações traumáticas ou não que enfrentou na sua infância e adolescência; ainda assim, não pode apagá-las. No entanto, como mencionado, você possui a capacidade de escolher como agir diante da realidade que lhe foi imposta.
A questão que quero apresentar através deste texto é: por que você não age, mesmo possuindo a capacidade para agir?
Existe uma frase atribuída a Sartre que diz: "O que você fez com o que fizeram de você?" E não se engane, potência não é ato. Ter a capacidade para fazer algo não significa que você fará. Você realmente tentou construir o amor que reclama não ter recebido? Não necessariamente da mesma pessoa, afinal, existe um mundo que se apresenta e ele não é conduzido pelas nossas vontades. Mas, apesar disso, você tentou construir um amor, seja ele qual for? Ou até mesmo uma releitura desta frase: "O que fez com o que não fizeram por você?" Sim, o que você fez?
Na clínica psicanalítica, esta é uma situação comum. Quando essas questões surgem, dois pontos precisam ser analisados: ponto de fixação da libido e compulsão à repetição.
Quando pensamos em um ponto de fixação da libido, estamos dizendo que a energia de vida que utilizamos como nosso potencial de ação está fixada em um determinado ponto. Essa energia psíquica, que poderia ser utilizada para o nosso potencial de autoconstrução, está presa em um acontecimento traumático, seja para alimentá-lo ou para reproduzi-lo, como na compulsão à repetição. Na compulsão à repetição, comportamentos ou situações sem um objetivo claro ou logicamente justificável são repetidos. Aqui, estou falando de situações ou relacionamentos claramente desagradáveis que são repetidos como uma tentativa inconsciente de dominar experiências traumáticas do passado, como Freud demonstra em "Além do Princípio do Prazer". Não buscamos apenas formas de satisfação; buscamos também maneiras de lidar com o sofrimento, mesmo que em alguns casos precisemos reproduzi-lo. Essa situação continuará a influenciar o presente até que seja identificada, transformada e que essa energia libidinal ou energia psíquica seja liberada e possa ser utilizada.
Então, uma resposta até certo ponto comum à pergunta "O que você fez com o que fizeram com você?" é: "Eu não fiz nada, não tive forças para fazer algo" ou até mesmo "Não consegui fazer algo diferente porque sempre me deparo com as mesmas situações".
Repito: energia de vida que poderia ser utilizada para a construção de si, fixada em um ponto traumático ou uma situação não analisada e refletida, é reproduzida como uma tentativa inconsciente de busca por solução. Contudo, essa busca pode ser feita de forma consciente.
Quando a resposta é que não se possui energia de vida para fazer algo, o que se faz necessário é o processo psicanalítico de busca e reflexão, procurando encontrar, através da história pessoal de cada um, onde essa energia está fixada e ressignificá-la. Assim, uma vez liberada, essa energia poderá ser utilizada para a construção de si.
Até o próximo texto.


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